Intercessão
- Mãe! Você por aqui… Não veio ontem…
- Ocupada, meu filho. Lavando, passando e ainda fiz uma faxina… Trouxe bolo.
- Oba! É de cenoura? Não devia se matar deste jeito…
- Fiz de laranja. Dizem que a cenoura está que é puro agrotóxico.
- Quais são as novidades? O que se conta de bom?
- Está tudo velho. Não anda lá essas coisas. O de sempre…
- O de sempre e como sempre, não? Chega a dar tédio… Humm está uma delícia!
- Você quer que eu faça café?
- Obrigado, mãe, mas estou evitando. Parei com o cigarro…
- Não devia comer nada a seco. Você sabe a prisão de ventre que tem…
- Você tem razão. Não obro há dois dias. Aceitaria era uma vitamina das suas… Faz?
- Agorinha mesmo. Já comprou a aveia que tinha acabado?
- Hoje mesmo. Ainda está naquela sacola, em cima da pia…
- Meu filho… Isto está uma bagunça… E você nem me deixa arrumar…
- Mãe, não quero abusar. Não ligo para isto – e você não é mais nenhuma garotinha…
- Eu vim pelo Jurandir. Está se esvaindo. Agora é só água e já falaram no cólera…
- Cólera divina, com toda certeza. Sempre fazendo por onde…
- É fraco, não sabe? Sempre fez o que pôde.
- Verdade. E sempre foi rápido em entregar-se àquilo que não pôde…
- Meu filho, ele está muito mal… E sofrendo bastante. Sempre sofreu. Você podia…
- Talvez sim, se ele merecesse. Mas, você sabe: é um verdadeiro pilantra!
- Coitado! Com aquela vida que tem… Sempre sem chances de endireitar o rumo…
- Eu sei. Mas… sei lá… parece que já não tem jeito. E acabou gostando assim mesmo.
- Nós já vimos gente pior… E que acabou se acertando…
- Um aqui, hoje… outro ali – uns dez anos depois…
- Eu sei, meu querido. Tudo muito difícil… verdadeira odisséia…
- Lembrou bem! Homero era cego: e olha o trabalho que fez. Lutou, se esforçou.
- É assim mesmo. Uns deixam obras, outros deixam filhos; crianças que vão passar fome…
- O Jurandir já anda em que número?
- Quatro meninos e cinco meninas. Tudo ainda pequeno, naquele capinzal esquecido…
- Não perdeu tempo, não é? Que gente! Dão sempre um jeito de piorar as coisas…
- Eles não sabem direito o que fazem… Meu filho… ele me pediu tanto!
- Imagino. Nessas horas é que se lembram…
- Já é alguma coisa. Tome, beba tudo: não botei muito açúcar, porque faz mal aos dentes…
- …to boa, só mesmo você… não há lanchonete que imite isto… consola a gente…
- Tão fácil… E não dá trabalho nenhum… Meu filho, faça isto pela sua mãe…
- O que a senhora me pede chorando… que eu não faça sorrindo?… Não sai um beijinho?…
- Tome, querido. Você anda tão magro…
- É de trabalhar de graça… Já está, mãe! Parou a corredeira, e amanhã o bruto levanta.
- Obrigada, meu filho! É muita bondade! Sabia que iria ter pena…
- Vai, minha velha. Eu agora tenho o batente… A senhora devia era fazer o curso de Direito…
